O fenômeno do HIpotético
Venho pensando recorrentemente no uso argumentativo do fenômeno de algo hipotético.
Claro, tal indagação surgiu de uma maneira cômica: os pedidos idealistas por Neymar na Copa. "Ele é o único capaz de ganhar a Copa", "ele é o mais preparado", "ele vai aguentar toda a pressão", "com uma perna joga melhor que todo mundo", e lá vai. Segundo as pessoas que corroboram com o Neymar hipotético, o Brasil ganharia de 8x0 da Alemanha se ele fosse o titular, e todos os erros da seleção nos torneios passados se deram por erros individuais que deixam o Neymar imune de críticas - salvo pelo Craque Neto, claro.
Porém, a mesma mistificação opera para outros debates, tal como o do aborto. Sou a favor da descriminalização do aborto. Melhor: sou a favor da legalização. Em 2024, no início da minha vida acadêmica, escrevi um artigo intitulado "De que vale a Lei? Uma análise jurídica da condição feminina através de Lima Barreto", e pode ser encontrado no academia.edu ou num google. Nele, mesmo que de forma bem germinal, trato como o ordenamento jurídico brasileiro é forjado pela criação, reprodução e manutenção dos privilégios oriundos das classes que produziam as leis. A mulher, nesse contexto, era objeto de reprodução do homem, cuja liberdade era um sonho idealizado, e por meio desta realidade de opressão Lima Barreto traça perfeitamente suas críticas. Informo que a criminalização do aborto não é somente uma usurpação da autonomia da mulher pelo seu próprio corpo, ou uma dicotomia entre o Código Civil de 2002 ante a moralidade da sociedade brasileira ad eternum. A criminalização é um modo de potencializar a segregação entre a potencialidade de ser da mulher periférica para com a mulher "de condições". A rica aborta, vai para Paris, e ninguém sabe. A periférica tenta em casa, ou vai para clínicas clandestinas, cujo destino posterior é o SUS para tratar das complicações. O aborto não espontâneo, que já é um trauma, amplifica como problema de saúde pública com sua criminalização.
Todavia, sempre que entro em combate com alguém sobre o tema eu ouço: "é.. mas o SUS já não presta, imagina se essas mulheres que querem abortar resolvem num dia fazer junto? Vai lotar tudo, vai ser crise de Saúde Pública. Tem que construir um hospital só pros abortos." Aqui jaz a máquina de aborto hipotética brasileira. Segundo essas pessoas, existem milhões de mulheres grávidas que só estão esperando o fim da ADPF 442, há uns 10 anos, para abortar o feto, e daí: BOOOM! Fim do sus. Cara, incrível!
Os leitos já enchem normalmente com as vítimas de abortos clandestinos, a diferença que o destino delas, ao invés de ser o caixão ou estatística, será um leito e um possível médico de qualidade para tirar com segurança o feto. Segundo pesquisa da ANIS (instituto de bioética), "Ainda de acordo com a OMS, a criminalização do aborto custa caro, tanto em termos financeiros como em relação à vida das mulheres. Anualmente, cerca de 7 milhões de mulheres são recebidas em hospitais devido a complicações causadas pelo aborto inseguro nos países em desenvolvimento. O custo desses tratamentos aos sistemas de saúde é de cerca de US$ 553 milhões por ano, sendo que entre 4,7% e 13,2% das mortes maternas são atribuídas aos procedimentos inseguros de interrupção da gravidez" (Anis | Quais números mudam após a legalização do aborto?)
Assim, a criminalização do aborto é só um privilégio ainda patriarcal e rogado pelas mulheres sob o véu da religião que prejudica e cerceia a plena autonomia humana de sua liberdade individual. O dever-ser da mulher é capado por uma legislação que continua sob os resquícios das normativas coloniais.
Também sou a favor da legalização da maconha e de drogas em geral, para que o Estado cobre imposto, controle, possa proibir veiculação, a Anvisa se meta, o monopólio do tráfico seja extinguido pelo empresariado, enfim, como ocorre com sei lá, o Dipirona ou Paracetamol. Mas, em debates é sempre: "É... mas se liberar todo mundo vai fumar maconha", como se quem não quisesse fumar não fumasse pelo crime. Pelamor de Deus, este é o fenômeno da "Bob Marleyzação Hipotética".
Ademais, temos os temas sobre populismo penal e tantos outros... mas achei interessante que o Neymar me suscitou um texto deste quilate kkkkkk Eu confio no Neymar Hipotético, quero ver um título kkkkkk
Que a humanidade seja desfeita dos grilhões que a aprisiona na guerra entre privilégios.

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