Ditadura e Liberdade

A ditadura contemporânea não impõe o silêncio, mas exige o eco: uma Inquisição civil onde todos são juízes, a ignorância dita a sentença e a divergência é a nova heresia.


Muitos pensam que Ditadura se dá somente pela supressão da liberdade pela violência, pela imposição de uma cartilha de ação por um governo, ou por preceitos religiosos a serem cumpridos a risca por um teocrata.

Porém, as democracias contemporâneas desmentem essa pré noção. A alta vigilância imposta nas ruas urbanas devido a violência, a necessidade da biometria facial na maior parte dos aplicativos para descobrir sua real identidade caso alguém queira lhe hackear, os posicionamentos obrigatórios em uma roda de amigos dependendo de seu ciclo de amizades, tudo isso definem sua aceitabilidade no meio social.

A simples vontade de dizer "não tenho opinião formada", "discordo", "não concordo", se torna uma missão quase impossível em uma sociedade que necessita palpitar e afirmar algo, mesmo que nem saiba do que esse "algo" se trata. É preciso ter um time para ser aceito, e é preciso destruir o rival. É preciso ser juiz, e é necessário julgar, e caso o réu não exista, inventa-se um.

Ditadura significa a usurpação das liberdades individuais e coletivas de um povo. Não seria, hoje, a imposição da opinião e a censura da opinião divergente uma forma de ditadura contemporânea? Uma ditadura que se expressa nos liames da liberdade, no riso de "nossa, como você não sabe?", ou "você acha mesmo que estamos numa ditadura só porque você não pode dizer o que quer"? Uma inquisição contemporânea?

Parece que a ânsia humana de julgar, quando empregada a tese de Bobbes, encontra terreno fértil nas redes sociais, cuja democratização no "se expressar" desalia qualquer necessidade de conhecimento prévio sobre o tema. Parece que a possível criticidade e formação de conhecimento por meio da dialética entre duas verdades diferentes são desnecessárias na sociedade da verdade absoluta e posta.

Por isso da Inquisição, em que os padres e inquisidores, apesar de estudos científicos e provas empíricas contrastantes, já possuíam uma certeza e condenavam o réu, tal como em Galileu. Hoje, diante do progressivo sentimento de insignificância humana, cada um quer se sentir juiz, pertencer a algo, mesmo que esse "algo" seja perseguir o diferente, independente de no futuro descobrir estar certo ou de não ter incorrido em erro, como em Sócrates.

Se a história da humanidade percorre a luta de classes, tal como diz Marx, inerentemente também incorre na perseguição do diferente e na censura da ideia e opinião, seja numa ditadura ou numa república inquisitorial mascarada de democrática pelo voto universal.

De Sócrates a Galileu, a humanidade nunca aprendeu.

Texto por Lucas Tavares, 08/07/2026.

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