A idealização em Lolita, de Vladimir Nabokov

por Miguel Barroso


"Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.” - O primeiro parágrafo de Lolita chama muito a atenção do leitor, e não é pra menos, já que temos um narrador de meia-idade descrevendo de maneira tão apaixonada uma criança que, quando a conheceu, tinha apenas 12 anos. Essa introdução ao romance é que define o tom idealizado com que Humbert, nosso protagonista e narrador, descreverá Dolores Haze, a Lolita, pelo resto do livro, e é exatamente sobre essa idealização que quero comentar. 

Para dar uma pequena introdução e exemplo da idealização na literatura, cabe citar a obra de Miguel de Cervantes que é, sem dúvidas, uma das maiores obras da literatura ocidental: em Dom Quixote temos um homem que, ao ler histórias de cavaleiros, acredita que há necessidade de resgatar os valores da cavalaria. Isso faz com que entre, por exemplo, em uma batalha absurda contra moinhos de vento, enxergando neles não o que de fato são, mas sim gigantes, com quem precisa lutar. Essa obra apresenta, talvez pela primeira vez na literatura, uma ilustração do distanciamento da mente humana com a realidade. 

Isso é quase exatamente o que ocorre com Humbert, leitor de diversos romances e poesias. Ele molda os romances, assim como faz Dom Quixote, à realidade. No artigo “Lolita and Mimetic Desire”, a autora mostra como, por exemplo, ele faz essa idealização com seu “primeiro amor”, uma menina com quem o protagonista, enquanto criança, tem uma relação amorosa: ele translitera um poema de Edgar Allan Poe para descrever o que sentia e a situação vivenciada pelos dois. Ora, é notório que a poesia é um elemento que pode ser usado para ajudar a descrever os sentimentos e as situações vivenciadas, mas há um abismo entre fazer isso e moldar alguém a ele. Ao pensar nela, Humbert não a enxerga como a pessoa real que era, com seus defeitos e qualidades característicos e que a diferenciavam dos outros seres-humanos, mas sim como a “Annabel Lee” do poema, com as características dadas pelo mediador Allan Poe. 

O mesmo poema também é usado para descrever só quê, além dele, há diversas outras referências de obras que Humbert usa para serem os mediadores de como a enxerga. Maud-Chia Rousseau, autora do artigo citado, sublinha que a menina, a pessoa real, fica obscura pela forma com que o protagonista a descreve. Isso deixa claro que ele não a enxerga como um ser humano real, mas sim, como já dito anteriormente, uma idealização do que lê.  

Há de se notar, todavia, que existem alguns momentos pelo romance em que o narrador capta e descreve a pessoa real, no meio de tanta idealização. Esses raros momentos são justamente os mais tristes da obra. Nos capítulos finais do livro, há um momento em que Humbert vislumbra, do alto de um monte em que subiu, uma cidade. De lá, ele escuta mentalmente o som de diversas crianças brincando, gritando, enfim, sendo crianças, mas ele nota uma coisa: o som de Lolita não está lá. Ele nota, em especial nessas partes finais, a destruição que causou na vida da criança. Todas as juras de amor que faz por ela, as descrições apaixonadas que faz, seu humor e tom sarcástico pela narrativa, todas escondem, exceto por esses curtos momentos de lucidez, o real horror do que aconteceu: um homem de meia idade e de posição de autoridade, se aproveitou de uma menina órfã, a chantageou, destruiu sua infância e, consequentemente, sua vida. 

Esses momentos de lucidez, em que ele, inclusive, nota de maneira consciente o que acabei de escrever, são logo suprimidos e volta à cena a idealização, de maneira que, pouco após dizer que acabou com a vida dela, termina sua narrativa dizendo que o livro será a forma dos dois poderem compartilhar a eternidade – voltamos à idealização. 

Há também, outros modos sutis em que podemos ver a mente idealizadora de HumbertNo décimo segundo capítulo da segunda parte, o narrador diz que teve algumas vãs tentativas de refinar seu gosto. Quais seriam esses gostos? Ela preferia os pintores Reginald Marsh e Frederick Waugh ao invés de Grant Wood e Peter Hurd. Ao pesquisar as pinturas desses artistas, podemos facilmente notar uma coisa: enquanto Grant Wood e Peter Hurd (os preferidos de Humbert) apresentam em suas obras cenas de paisagens bonitas, calmas, campestres, Reginald Marsh mostra a prostituição e as cenas de uma Nova Iorque pós-grande depressão. Fredeick Waugh, por sua vez, possuí uma gama um pouco diversa de pinturas, mas as mais famosas são de representações de um mar agitado e impetuoso. Pode-se dizer que enquanto os artistas favoritos de mostram o que se passava em sua mente, o mesmo acontecia com os de Humbert. 

Assim, não podemos dizer que a idealização que Humbert faz de Dolores é apenas um instrumento narrativo para mostrar o quanto ele distorce a realidade, mas também um convite a refletirmos nossas próprias leituras e interpretações. Nabokov nos desafia a olhar além da superfície e confrontados com a fragilidade da percepção humana. Afinal, quantas vezes não somos nós próprios Humberts, moldando as pessoas e o mundo ao nosso redor a partir de idealizações, ao invés de enxergá-los como realmente são? 


Lolita

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