1984
Mesmo para aqueles que rogam a defesa da liberdade de expressão irrestrita, o germe da censura permanece vivo. Vide as pessoas de extrema-direita que reclamam que a cultura woke os impossibilita de falar, sendo que ao mesmo tempo não querem que as mulheres façam aborto, que as drogas sejam legalizadas, e querem cercear a liberdade de músicos e artistas da comunidade.
Eu discordo daqueles que examinam o ódio e a desigualdade social por meio da natureza humana; usam Hobbes como resposta para qualquer conflito, como se a humanidade fosse uma idealização torpe para uma ad eternum alcateia irracional. Discordo pois tenho a esperança de um dia a briga por recursos for inútil, já que todos terão acesso ao que necessitam; que a sede por poder seja lembrança de um passado sangrento que nunca retornará; que o passado seja jogado na máquina devorada de memórias e o futuro seja de luz e fraternidade. Curioso que é assim que o Partido se apresenta para o mundo...
1984 é um livro que demonstra o quão poderoso é uma ideia: por isso que o pensamento é crime na Oceania, "país" em que vive Winston. Tenho de me criticar por ter achado o livro péssimo outrora: peguei uma tradução horrível que, por suas palavras desconexas, me fez achar um texto confuso e perdido. Hoje, após ter lido pela edição ad companhia das letras, me sinto imbuído de ainda rogar o apreço máximo às liberdades individuais. Ainda entorpecido por Stuart Mill em "Sobre a Liberdade", percebo que nem a Constituição e nem a Vontade Popular são forças capazes de defender a liberdade, já que o caminho da abstração à concretude perpassa por meandros políticos que definirão a legalidade por meio dos próprios privilégios de classe, ou daqueles discursos que o possibilitarão mais votos e permanência no poder.
A Segurança Jurídica é uma ilusão em tempos de tipos penais a varejo. O princípio da Legalidade é um ninho de canários desprotegido de, sob os olhares de gaviões famintos. Vide, por exemplo, ser mais grave o sequestro e cárcere privado cometido por organização criminosa (12 a 20 anos) do que o sequestro e cárcere privado que resulta em grave sofrimento físico ou mental à vítima (2 a 8 anos), conforme art. 148 do Código Penal. Ou, a tipificação do animus jocandi em injúrias, conforme o art. 20-A da lei 7.716, mesmo que a tipificação dos crimes contra a honra tenha como princípio o animus offendi, o intuito de ofender, sendo a recreação um não componente para formação do crime, conforme os manuais mais renomados de Direito Penal. Tudo muda, tudo se altera, tanto por uma esquerda que, em 22 anos na presidência alcançou os maiores índices de encarceramento na história do Brasil, quanto por uma direita que, no dia 02/06/2026, em um Senado vazio e em 2 minutos revogaram uma regulamentação do CONANDA para realização do aborto legal em crianças vítimas de estupro.
Ora, será que nós já vivemos no cenário vivenciado por Winston, em 1984, sendo nós os proletas, absortos de nosso meio, alimentados a todo momento pelo ódio das redes sociais, imergido na ilusão das loterias e das bets, alienados no presente, esquecidos do passado e desinteressados perante o futuro? Seremos nós teletelas de nossos vizinhos, amigos, colegas, engatilhados para, no primeiro deslize, julgá-los e cancelá-los? Mandá-los para a polícia das ideias?
Incrível como Orwell em 1948, sob uma análise do presente, previu a realidade panóptica, auto-destrutiva e cruel em que a humanidade viveria: o abismo, em nenhum momento da história, foi novidade.
Não tenho mais o que falar, esse livro me arremessou diversos questionamentos em que alguns me acertaram, dos quais lembrei de colocar aqui, e outros que aparecem do nada no metrô, no meio da rua, na vista de um reels... Um livro necessário para toda a humanidade.
Enfim, leiam 1984 e reflitam. Ademais, leiam Stuart Mill, sobre a liberdade pela L&PM e defenda a liberdade individual e todas as liberdades que não lhe gerem dano. Discordar não gera danos, mas lhe faz construir argumentos para combater e produzir uma verdade. Se você não é capaz de argumentar, mas, tão somente, de julgar, condenar e encarceirar, você é só um membro do Partido, um aliado ao Grande Irmão, e um inimigo da justiça, da fraternidade, e da humanidade.

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