Fahrenheit 451

Os livros são queimados por nos fazerem pensar. 


Os livros e os leitores são queimados e perseguidos porque produzem pensamento, crítica. Porém, a proibição não adveio de um ato arbitral do governo: derivou da própria vontade popular. As telas faziam mais sentido, as chamas eram entretenimento. Buscava-se o mais puro prazer. Ler é chato, difícil e não gera prazer imediato. Muito melhor comprar telas, ter pessoas, famílias virtuais. Clarisse foi queimada, na verdade atropelada, por perguntar demais, querer saber a razão das coisas. O pensamento não é crime, tal como o é em 1984. A sutileza é maior: a potencialidade do pensar que é condenável. A alienação das telas deve ser o meio e o fim, as pessoas, indiferentes entre si. Uma casa clara de noite era suspeita, já que as famílias não conversavam entre si, e o passatempo se dava na tela.

 Fahrenheit 451 é uma obra prima, mais reflexiva que 1984, penso eu. Uma escrita fenomenal, com novidades gramaticais formidáveis, como a sequência de palavras soltas interrompidas por pontos finais, ou repetições em diálogos que nos geram angústia. Uma distopia que, na verdade, é um espelho invertido da contemporaneidade. 

4 dos 5 livros mais vendidos no Brasil são de colorir. Alguns psiquiatras dirão que a razão está em adultos querendo ser crianças, outros que um livro dura mais que um shorts ou um reels o explicando por inteiro. Ou, ler um livro é mais lento que uma inteligência artificial respondendo um prompt sobre ele. 

"Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam a mão sobre ela. Os ruins a estupram e deixa para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida". Ray Bradbury, Fahrenheit 451.



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