Reflexões II

 Talvez eu devesse temer pela hipocrisia que minhas palavras produzirão. Talvez dirão: "isso tudo são coisas do momento, pois em minutos estará imbuído da lava que visa petrificar", "para de história, age nas sombras achando que ninguém lhe desnudará com o sol", "você finge mentir para si mesmo!". 

Sou um idiota por me afastar de pessoas que bebem e fumam? Sendo que parece algo tão natural para adultos... Sou um ingênuo rapaz, ou um palhaço, por ter riso frouxo e em momentos sérios tentar aliviar o clima, ou não ser mais um daqueles que só falam de problemas ou rivaliza as dificuldades com os amigos ébrios na mesa do bar?

É tão nítido que as minorias desejam a colisão em coliseus para, no conflito e na conquista por benefícios, acabam por cercear a liberdade de uns, em pról de outros, até que esses outros sejam desconsiderados, e outrens sejam postos na frente, até que nem uns, nem outros e nem outrens usufram de quaisquer liberdade, já que um "ele" deterá o monopólio do arbítrio e definirá os passos daqueles que, em defesa da diversidade, podaram todas as formas de autonomia humana e social.

Eu produzia vídeos, achava que o Instagram me produziria networking, tal como o canal no Youtube. Vi que tudo que consegui foi batendo portas alheias, me inscrevendo em palestras, enviando emails descompromissados, e trabalhando, trabalhando, orando, e trabalhando, mais por QI - quem indica - do que QI - quantidade de inteligência. O Instagram e o Youtube só são formas de, ou se embebedar de reels e esquecer o básico da existência, ou gastar 3 horas editando vídeos para ou 3 pessoas comentarem que gostarem, 200 virem, 60 curtirem, e 4 rirem do seu jeito de falar, agir, ou 1, talvez, lhe desclassificar em algo que disse sobre algo ou alguém. 

Li 1984, Fahrenhrit 451 e, agora, Admirável Mundo Novo. Já tenho marcado um livro de Lima Barreto e um de Sabino. Eu ando pela casa, me suscita na mente um conto, uma crônica. Escrevo, 2, 3 páginas, apago: "não sou Orwell ou Radbruy", e venho aqui ver se faço algo de útil. 

Ser adulto é parecer ser sério, ou é dispor da humanidade? A sociedade sempre tenta colocar rótulos de comportamento em tudo. Será que o que construímos é, efetivamente, o certo? Enquanto ele bate a cabeça contra a parede pensando que jogou 5 anos no ralo por ser o curso uma inutilidade sem tamanha, já guardando a pensão para financiar um carro e lograr no Uber. Ou, alguém que anda para frente, trás, cabeça erguida, abaixada, pensando na Ucrânia, na Letônia, Moldávia, como se fosse um Bolchevique, com seu manifesto embaixo do braço, e sua mãe o interrompe dizendo: "são 10 horas, vai dormir" e o pai, baixo, "ele tem 24 anos, Maria, tem que trabalhar, acordar", e ele, com seus fones entorpecidos pelo hino da URSS não ouvem a esperança que tenta lhe conceder mais 1 dia da mais ébria permissividade e ociosidade. Dois cenários diferentes: um que se matou de estudar para um fim comum, e o outro, sem estudos com um fim garantido pela fortuna dos pais. Iguais, e separados por um sobrenome, ou pela desigualdade.

Penso que a escrita é a forma pela qual podemos reprimir nossos desejos mais torpes, ou onde aflorar a imaginação cerceada pelas telas que carregamos nas mãos e que nos afugentam em todos os cantos, de outdoors aos vidros transparentes das vitrines: no fim, tudo é consumo. Até livros. Lembro-me - agora é real - de responder um storie de um rapaz que publicara uma foto de "O Sol é para todos". Logo lhe respondi "que incrível, um livro espetacular. O que achou?" e ele, "nem li kkk postei porque as mulheres curtem". Provavelmente, ele consegue algo com aquilo. Vazios, vazio, abismo.

Escrevi esse texto para tentar compreender as pessoas que postam reels, stories, status, bebendo e bebendo, com falsas personalidades, trejeitos, aparências, vivendo de festas, ganhando seu dinheiro, mas se autolesionando de forma racional e autoral.

Que sá eu seja chato, que sá estes 3 livros lidos em um mês tenham me feito um crítico momentâneo, talvez eu seja o Montag, embuído de ilusão ou da beleza dos livros, e seja só um idiota. Talvez...

Pensar é bom, refletir, mas é desgastante. Não é algo feliz, por isso os pensamentos nas distopias são proibidos.

Queria saber se Aventuras de Gulliver" ou "Moby Dick" são bons. Enquanto isso, lembro das provas... notas, notas. Queria uma mala. Nunca sei como finalizar.


05/06/2026

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