O Tribunal de Clint Eastwood

Jurado Nº 2 (2024) (Juror #2)

Por Lucas Tavares


DIREÇÃO: Clint Eastwood
ELENCO: Nicholas Hoult, Toni Collette, J.K. Simmons, Kiefer Sutherland, Zoey Deutch, Chris Messina, Gabriel Basso, Cedric Yarbrough
ROTEIRO: Jonathan Abrams
PRODUÇÃO: Clint Eastwood, Tim Moore, Jessica Meier, Adam Goodman, Matt Skiena
MÚSICA: Mark Mancina
FOTOGRAFIA: Yves Bélanger
MONTAGEM: Joel Cox, David Cox
DIREÇÃO DE ARTE: Não disponível
DURAÇÃO: 114 minutos
GÊNERO: Suspense Jurídico
DISTRIBUIÇÃO: Warner Bros. Pictures
DATA DE LANÇAMENTO: 1 de novembro de 2024
ORIGEM: Estados Unidos**

 NOTA: 8

"E o fato de o júri estar demorando mostra que as coisas podem estar funcionando como deveriam"

 

"Às vezes, a verdade não é a justiça".


Estamos diante de uma promotora que quer condenar um suposto criminoso por ter assassinado a namorada após uma briga, a fim de alavancar sua carreira política; um advogado que separa o direito de política e considera o ato populista da promotora como inadequada, assim, defendendo a inocência do suposto assassino; diante de 11 pessoas que querem voltar logo para suas casas e condenar o homem a 30 anos ou mais de cadeia; e temos alguém que, receoso de ter sido o próprio assassino, não quer condenar alguém pelo efeito manada, mas quer discutir o caso e debater as provas.

O estilo do filme lembra muito "Angry Men", ou "12 Homens e uma Sentença", que possui crítica aqui no blog.

Um alcóolatra curado vai para um bar, havia um ano que seus filhos gêmeos haviam morrido ainda na gravidez - não sabia como tratar a ferida, e decidiu fazer como nos velhos tempos. Porém, não bebeu, ficou olhando para o copo, e foi embora para casa. Antes, chorava no carro. Caía uma chuva torrencial. Pelo retrovisor, via um casal brigando. A mulher tinha ido reto na estrada, com seu salto alto, cuja estrada, no breu, poderia ser um caminho arriscado devido atropelamentos. O homem tentou ir atrás dela, mas entrou em seu carro, deu meia volta e voltou para casa. O caminho de Justin Kemp (Nicholas Holt), o antigo alcóolatra, era o mesmo da mulher

Em um momento, Justin bate em algo com seu carro. Olha à sua volta, uma chuva danada, estava em uma ponte e o riacho abaixo estava cheio. Tinha uma placa avisando de cervos nas redondezas. Pensou, então, que havia atropelado sem querer o animal, e foi embora.

Um ano após, viria a ser convocado a ser jurado de um caso: James Sythe era suspeito de ter assassinado sua namorada, Kendall Carter, após uma briga. Ela foi encontrada em um riacho abaixo de uma ponta, e a possibilidade mais fática era a de ter sido agredida ou atropelada violentamente. 

Justin não queria ser jurado, mas, como a juíza apresentou: o fato de não querer julgar é o que traz a imparcialidade. Talvez seja inverídico a pressuposição, pois, tal como em "12 Homens e uma Sentença" e nesse, dos 12, os 11 jurados queriam condená-lo como culpado por ter filhos a cuidar, ou por parecer mesmo ser Sythe o culpado, ou por estar nem aí pro caso mesmo e querer voltar para casa.

Diante de toda a apresentação do caso, Justin fica indeciso e, no fundo ou realmente, sabe que o verdadeiro assassino de Carter foi ele. Decide, então, inocentar Sythe, e propõe isso à mesa, sendo o único dos 12 a propor a inocência. Claramente, todos se revoltam, acham ele o chatonildo que quer atrapalhar as coisas.

Nas conversas discutindo os fatos do caso, um homem aparece debatendo a forma pela qual a promotoria age investigando, sendo totalmente amadora, mostrando somente um suspeito às testemunhas e, por confirmação, elas afirmarem serem o Sythe - se não há 2 opções, e os policiais parecem convictos, qual a razão de negar? Nisso, a confusão toma conta dos jurados, e do único a inocentar vão para 2, 3, 6.

O caso da testemunha ocular lembra muito o velhinho que ouviu os gritos com o trem passando em "12 Homens e uma Sentença". No caso de Juror 2, o velhinho estava a 100 metros da ponte, em uma chuva torrencial, e afirma ser Sythe por só ter sido ele a ser mostrado. Quando a promotora, já indecisa se realmente foi Sythe o assassino, interroga o velhinho, ele a pergunta no final se foi realmente Sythe o culpado, pois confirmar ser ele para a polícia foi como se ele realmente estivesse vivo. Um idoso que mora na beira da estrada em um trailer sozinho só quer se sentir vivo novamente, útil.

O filme ao todo traz reflexões bastante importantes sobre o que é a justiça. Logo no começo, o advogado de Sythe, que é amigo da promotora, que visa a condenação de seu cliente, a interroga se ela está buscando justiça ou fazendo política. A promotora estava em campanha política sendo a mulher que defende as mulheres e combate a violência doméstica. Vencer o caso e condenar Sythe, para ela, era declarar vitória na corrida eleitoral. Ao decorrer do filme, ela percebe que não é Sythe o verdadeiro assassino, e após a decisão final do Juri, a sua reação é surpreendente.

Não quero contar spoilers ou entregar todo o filme de bandeja, pois recomendo demais que o assistam - é mais uma obra-prima do já velho de guerra Clint Eastwood. Se, em "Meninos e Lobos", o diretor reflete sobre a Inocência e a Justiça, no presente filme ele reflete sobre a Justiça, a briga de egos, e se é mais importante ter status ou honra.

A promotora sabe que Sythe é inocente, mas não pode ir atrás no caso pois perderia a luta eleitoral, o cargo de promotora geral, e seria descreditada por toda a mídia, sendo tratada como uma aproveitadora. Justin não podia se declarar culpado, pois sua esposa passava por mais uma gravidez de alto risco, cuja filha queria que nascesse, e havia prometido estar presente onde der e vier. 

O Juri ter conversado e refletido sobre a absolvição mostra que o germe da justiça brotou naquela sala onde estavam os 12 jurados. Mas, o final, propõe a seguinte pergunta: será a justiça um correlato da verdade? E o que será a verdade ou a justiça?

No Direito tratamos muito com abstrações, termos e conceitos abstratos, como Liberdade, Justiça, Verdade, moral, cujos significados variam de autor a autor, de pessoa a pessoa, de jurista a jurista. 

O que será o Direito, se não, um instrumento de poder? E, comandado por pessoas, um meio pelo qual as pessoas podem usar vidas e condenações para alavancar na carreira e ter status. O Ego, portanto, sobrepõe qualquer ideal de justiça.

O filme nos propõe uma visão realista do mundo jurídico e nos traz o seguinte questionamento: o que faríamos se estivéssemos na pele de Justin?

 



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